Depois de 57 voltas em Madring, o resultado ficou claro nos números antes mesmo de qualquer piloto abrir a boca: pouquíssimas ultrapassagens, um total de quatro, menos da metade do que tivemos em Mônaco. Nenhuma grande emoção ao longo da corrida e um público que, apesar de lotar as arquibancadas do entorno da IFEMA, assistiu a mais uma procissão do que a uma corrida de F1. Não é exagero: os próprios protagonistas deixaram claro o desconforto com o roteiro chato que Madring proporcionou em sua estreia.
Poucas ultrapassagens, muita frustração
Os números não deixam margem para dúvida: a corrida de Madrid entrou para a história recente da F1 como uma das piores em ação direta entre os carros, ficando atrás até de circuitos historicamente considerados difíceis de ultrapassar, como o de rua em Mônaco. Quando um traçado novo estreia perdendo feio nesse quesito para o principado, é sinal de que algo saiu muito errado no projeto. É claro, Mônaco sempre terá seus defensores.
E não foi só uma questão de layout. A baixa degradação do asfalto novo, somada aos compostos de pneu escolhidos pela Pirelli para o fim de semana, tirou de cena qualquer variável estratégica que pudesse gerar emoção. Sem desgaste de pneus, não existe margem para estratégias alternativas de pit stop, já que o próprio pit lane era longo demais para valer a pena arriscar. Assim, a corrida perdeu o ingrediente mais básico de qualquer bom Grande Prêmio: a incerteza.
O aviso já foi dado
Raramente se vê uma reação tão unânime e imediata após uma estreia. Pilotos de diferentes equipes, de diferentes gerações e com estilos de pilotagem completamente distintos deram o mesmo diagnóstico logo depois da bandeirada sobre o que foi essa corrida disputada na capital espanhola. Isso não é coincidência nem exagero midiático. É sintoma.
Vale também trazer à tona as ressalvas levantadas sobre segurança em alguns trechos de alta velocidade com visibilidade reduzida, o que deixa evidente que Madring precisa de ajustes. Não se trata apenas da falta de espetáculo, mas de engenharia de pista que precisa ser revista com urgência ao longo do próximo ano, sob pena de o novo Grande Prêmio da Espanha nascer com fama de sonífero permanente. Isso porque sempre reclamamos das corridas em Barcelona.
O que fica da estreia
É preciso separar as coisas com honestidade. Enquanto espetáculo fora da pista, evento turístico e vitrine internacional, Madrid entregou o que prometeu: organização de alto nível, ambiente vibrante e uma exposição de imagem que qualquer promotor de Grande Prêmio sonharia em replicar. O problema está dentro da pista.
Um circuito novo que estreia como o mais pobre em ultrapassagens da temporada não pode ser tratado como detalhe a ser resolvido “com o tempo”. A boa notícia é que a organização já sinalizou disposição para promover mudanças no traçado antes da próxima corrida, o que sugere que o diagnóstico foi percebido por todos. A má notícia é que, por enquanto, Madring entra para a história da Fórmula 1 pelo motivo errado: não pela Monumental, não pela linda vista da cidade, mas pelo tédio da largada à bandeira.
Fórmula 1 não vive só de cenário bonito. Vive de disputa, de risco calculado, de brecha para ultrapassagem. Madring, por ora, tem o cenário. Falta a corrida.
































